Prólogo III

Na mensagem anterior terminei com o raciocínio de que foi um milagre a minha mais que tudo ter aceite a minha proposta de namoro.
Mas aceitou. E o que é facto é que isso veio mudar muita coisa.

Para começar, já estávamos livres da necessidade de ter que sair em grupo. Já não éramos 2 pessoas que só se viam porque um primo e uma irmã os convidavam para sair. Não. Agora tínhamos uma relação que provavelmente iria durar uns dias ou umas semanas (a olhar para o que me tinha acontecido no passado) mas que me colocava numa situação em que podia telefonar para a minha mais que tudo e convidá-la para sair quando eu quisesse e não quando o meu primo tivesse tempo. Até porque esse timing podia não coincidir com o dia de folga da minha futura sogra.

Nessa altura eu já levava o carro do meu pai quando ia ficar a casa dos meus tios. Mas não podia fazê-lo para sempre porque o meu pai também precisava do carro aos FdS senão tinha que ficar ali fechado em casa.

Tendo-me tornado namorado da minha mais que tudo, fui apresentado aos meus futuros sogros. "Este é o Sr. R"...nunca percebi bem porque não foi como sendo o "este é o Sr. R, o meu novo namorado". Não vou dizer que não fiquei um bocadinho triste. Pela primeira vez na vida queria ter sido apresentado aos pais duma namorada e tinha imaginado várias vezes aquele momento. E de repente eu era só o Sr. R...
Não fez mal nenhum e nem sequer foi motivo de discórdia, mas fiquei um bocadinho triste.
Passei a privar com os pais dela, em especial com o meu futuro sogro que costumava trabalhar ao Sábado mas que estava por casa ao Domingo.
O meu sogro era uma pessoa reservada, de poucas palavras mas de bom coração. E ainda é. Vida longa e cheia de saúde é só o que lhe desejo, a ele e à minha sogra. Irei considerá-los para sempre como família.

Ora, num desses FdS que ficámos ali por casa dos meus sogros fui apresentado ao "Ferrari", um velhinho mas muito bonito Fiat 127 que tinha ficado com aquela alcunha provavelmente por ser Italiano e por ter uma cor vermelha e ser muito vistoso. Um autêntico desportivo. Só faltava ter só 2 lugares.
O Ferrari tinha uns problemazitos próprios da idade avançada e por já não andar há uns tempos e o meu sogro esteve um dia inteiro de volta dele para rever os travões e para o conseguir pôr novamente a trabalhar.
Ainda me lembro. Circuito de óleo de travagem todo sangrado, bateria recarregada, rolamentos lubrificados, sinoblocos identificados para serem trocados. Check up completo. Só faltava substituir umas borrachas ressequidas, os tais sinoblocos e comprar uma bateria nova porque aquela ia durar pouco tempo.
E o meu sogro não foi de modas. Com o carro a trabalhar ali à minha frente disse-me que era para mim. Nem sabia o que dizer-lhe. A minha namorada segredou-me ao ouvido que aceitasse e assim fiz.
Vamos ser honestos, o Ferrari era muito diferente de conduzir comparado com o Rover 214 do meu pai mas tinha um feeling diferente. Podia tentar repará-lo e fazer-lhe alguns melhoramentos que estava mesmo a precisar, principalmente os buracos de ferrugem que tinha na cava das rodas.
Falei com um ex-colega de escola que estava a trabalhar numa oficina com bom nome em Odivelas. Levei-lhes o Ferrari e disseram-me que lhe iam fazer uma "inspecção" e que depois me davam um orçamento.
Passados 2 ou 3 dias disseram-me que tinha ali uns arranjos para 80 contos, uns 400€, já incluindo a revisão com muda de óleos e filtros. Ainda me disseram que me arranjavam a parte da ferrugem num bate-chapas que trabalhava para eles por 50 contos mas que me aconselhavam a ser cuidadoso com os gastos nas reparações porque se tinham apercebido havia um problema eléctrico que para resolver ia obrigar a gastos muito elevados porque obrigava a desmontar tudo e substituir tudo o que fosse fio eléctrico.

Ainda demos umas boas voltas com o bom do Ferrari até que um dia, a chegar a casa dos meus tios, começou a deitar fumo e parou. Felizmente que não pegou fogo. A malta que estava por ali ajudou-me a encostar o carro e estacioná-lo em condições. Pedi a 2 mecânicos para lá irem mas nenhum apareceu. O carro foi ficando por ali várias semanas e não conseguia resolver o problema. Corria o risco que mo rebocassem por já estar ali parado há muito tempo com aspecto de abandonado.
Pedi a uns amigos do meu primo para darem lá um pulo e ajudarem-me a pôr o carro a trabalhar. Não conseguiram mas fizeram-me uma proposta. Eu dava-lhes o carro e o problema passava a ser deles.
Pressionado por ter ali o carro há tanto tempo com aspecto de abandonado, cedi e entreguei-lhes o Ferrari sem sequer falar com o meu sogro que mo tinha oferecido.
Um erro daqueles que me irei arrepender toda a minha vida...
Claro que aquilo lhe caiu mal quando soube. Se tivesse sido eu a dar o meu carro antigo a um namorado da minha filha também não ia achar piada nenhuma. Uma infantilidade. Bastava ter falado com ele. Devo ter descido uns valentes furos na opinião que ele tinha por mim e a minha namorada também ficou possessa por 1 ou 2 semanas. E não era para menos...

Bom, tinha voltado a ficar sem rodas e por isso tive que comprar outra caranguejola mas que estava em melhor estado do que o Ferrari. Um Ford Escort 1.1 também ele vermelho, se bem me recordo de 84. Foi só montar-lhe pneus novos, um auto-rádio e umas colunas e aí fomos nós à nossa vidinha.
Era espaçoso e razoavelmente confortável. E acima de tudo não tinha o cheiro a gasolina que o Ferrari tinha dentro do habitáculo.
Demos muitos passeios e voltinhas com o NE-18-00. E levávamos sempre o Sr. N connosco. Menos à noite, quando fazíamos um bocadinho de parking ali por perto. Tantas saudades desses tempos...

Estávamos a começar a conhecer-nos bem um ao outro. E a cada dia que passava junto daquela deusa mais tempo queria passar com ela.
Continuava a almoçar muitas vezes com os meus tios antes de ir ter com o meu amor. Há um dia que o meu primo mais velho e eu nos atrasámos a chegar ao restaurante e ficámos lá a almoçar sozinhos, num Chinês que havia ali mesmo ao pé.
E de repente o meu primo saiu-se com uma que me desarmou.
- Primo, ando a ficar preocupado contigo.
- Então porquê?
- Porque parece que daqui a pouco ainda te casas com a Sra. S.
A conversa foi inesperada, mas a minha resposta foi muito rápida e cheia de certeza.
- Escusas de te preocupar, primo, porque eu sou daquelas pessoas que nunca me hei-de casar. Vamos divertir-nos enquanto ela me quiser aturar e depois vamos seguir os nossos caminhos.

Aquela resposta tinha uma razão de ser. Eu tinha visto o que se tinha passado com os meus pais. Tinha visto o que se tinha passado com os meus tios, o irmão da minha mãe, e tinha tomado uma decisão: nunca me iria casar nem deixar levar para uma relação semelhante.
Tão tótó...eu já estava completamente apaixonado e já não era capaz de viver sem ela. Ela era linda. Uma deusa. Ainda é. Mas não era por causa disso que eu estava apaixonado. Era porque eu adorava aquele ser humano que só eu conhecia como deve ser e que toda a gente dizia ser um bicho do mato com tiques de altivez e de importância a mais que os outros, que dava respostas a roçar a falta de educação.
Tão ignorantes...não faziam ideia da doçura de ser humano que ela era e que ainda é. A culpa de não saberem não é das outras pessoas, é dela, mas se soubessem do que eu sei não diziam o que dizem.

Vou ver se amanhã me lembro de mais.
Um beijo cheio de amor deste teu corno que te ama muito, minha leoa.

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