Prólogo II

Falei-vos das mãos da minha mulher? Ex-mulher, Sr. R. Sim, isto vai custar a sair naturalmente cada vez que o digo.
Bom, há homens que começam por olhar para o traseiro, outros que olham para a prateleira, outros para as pernas...eu sou tramado: olho logo para as mãos.
E sou esquisito como um raio. Para mim as mulheres deviam todas ter mãos perfeitas, com unhas de verdade (também perfeitas), com ou sem verniz. Mas só verniz, que essa coisa de unhas postiças até me faz urticária.
Admito que entre as duas coisas que mais saltam à vista eu dou prioridade aos peitos, mas aquilo que me tira do sério são as mãos. E de certa maneira os cabelos, que pelo que entendo têm muito em comum com as unhas.

Infelizmente poucas são bafejadas pela sorte de terem mãos parecidas com as da minha mais que tudo. E vocês não estão bem a ver. Sabem aquelas fitinhas elásticas para agarrar o cabelo? E uma fitinha dessas no pulso dela? Com as unhas naturais dela?
A verdade é que eu tenho imensa sorte de o azar só agora me ter batido à porta, porque com os atributos naturais que ela tem, é de estranhar que nestes anos todos não lhe tenham batido à porta dúzias de homens. Ou se calhar bateram e ela é que os soube manter da porta para fora...

Adiante. Tínhamos acabado de nos conhecer e eu não sabia se a voltaria a ver.
Por acaso (vejam lá bem as obras do acaso...) voltei a casa dos meus tios no fim-de-semana seguinte e arranjei maneira de ter que dar uma ajuda ao meu primo com qualquer coisa na mota. Fomos sair os 2 para fazer qualquer coisa que não me lembro e ele lá acabou por dizer que já era tarde e que tinha que passar em casa da namorada para lhe dar um beijinho. Ó que chatice...ia ter que passar por casa da tal deusa da pastilha elástica. Afinal havia esperança que a pudesse voltar a ver nesse FdS.

Lembro-me como se fosse hoje que a irmã foi à janela e que disse que ia descer e que a minha deusa passado um bocado se aproximou da janela e que se riu como se eu tivesse feito uma qualquer patetice. Ou seja, não se estava a rir para mim, estava a rir-se de mim. Bom, ao menos provocava-lhe boa disposição.

Fiquei por ali, ao pé da mota com o capacete na mão, suficientemente afastado do meu primo e da namorada e sempre com um olho naquela janela.
Não a voltei a ver mas vi várias vezes o cortinado a mexer-se...

Os FdS foram vindo e eu fui aparecendo com frequência. Se calhar em todos eles. 👀
O meu pai e a minha tia tinham falado um com o outro e a minha tia tinha-lhe dito que ficasse descansado que ela olhava por mim e que eu podia lá ir ficar a casa sempre que quisesse.
Não sei quanto tempo passou (para mim foi uma eternidade) mas lá veio um FdS em que finalmente voltei a poder vê-la e fizemos uma saída a 4 porque a mãe delas estava de folga e pôde ficar com a criança que tinha meses.

Levámos o carro da minha tia e lá fomos comigo ao volante, o meu primo ao meu lado e elas duas na traseira do carro. Não paravam de cochichar uma com a outra e riam-se que nem umas perdidas.
Eu como tinha carta há pouco tempo pensei que fosse de verem que a minha condução era fraca, tipo velhinha ao volante. Mas às vezes estávamos parados num semáforo e riam-se à mesma o que me fazia pensar que estavam a gozar comigo de alguma coisa que eu tivesse dito ou feito. Eu como sempre fui tipo Nuno Markl, estou sempre a fazer qualquer palermice e pareço um elefante numa loja de porcelana, tinha a nítida sensação de que era gozo com a minha cara.
Lá fizemos o nosso passeio. Íamos ficando com o carro atolado na areia do estacionamento onde estivemos a fazer parking e só por sorte conseguimos sair dali. Íamos rebentando com a embraiagem do carro da minha tia.
E lá voltámos a deixar as moças em casa. E eu destroçado com a troça que para ali ia com a minha cara.
Mas de caminho para casa dos meus tios, o meu primo disse-me que achava que a minha "mais que tudo" era capaz de ter engraçado comigo...
Não percebia nada daquilo. Então achava que eu era uma piada ou gostava do que via? Com 19 anos não percebia nada do que vai na cabeça das mulheres e a realidade é que ainda hoje com 46 continuo na mesma sem nada perceber...

Os nossos encontros eram escassos porque aconteciam só aos FdS e porque tinha que usar as saídas do meu primo com a namorada como subterfúgio para lhe aparecer à porta. Lá veio mais uma saída, desta vez creio que ao fim da tarde em que voltámos já era de noite (a memória atraiçoa-me) em que pela primeira vez demos a mão um ao outro sempre comigo completamente enfeitiçado com aquela capacidade sobrenatural para manejar uma pastilha elástica com a língua e no caminho de volta veio a dar-me puxões no cabelo como que a dizer-me "pateta, ali de mão dada devias ter-me beijado!".

E é que a treta é que só nos conseguíamos aproximar um do outro quando a mãe dela estava de folga e podia ficar com o pequenote.

Tudo o que se passou a seguir é extremamente difuso na minha mente. Foram demasiadas coisas em tão pouco tempo, coisas demasiado importantes e que a minha mente não soube preservar. Sei que nalguma saída ela me continuou a cutucar e que eu lhe comecei a cutucar de volta estendendo o braço para trás para lhe beliscar as pernas enquanto conduzia. A seguir veio o nosso primeiro beijo que, se bem me recordo, foi à beira-mar no pontão das praias de Oeiras/Cascais. Tenho ideia de que foi um beijo tão jeitoso que lhe babei a cara e a boca toda. Pensei que ela da vez seguinte (se ainda me desse nova oportunidade) me ia pedir para eu primeiro pôr um babete.

Eu parecia que tinha acabado de nascer. Que nunca tinha estado com uma mulher.
Na verdade tinha tido poucas e por pouco tempo, mas eu sabia fazer melhor do que aquilo. Estava a deitar tudo a perder e a fazer figura de urso. Mas isso não a intimidou. Ria-se que nem uma perdida comigo e com as minhas patetices e eu continuava sem saber se era bom ou mau sinal, mas continuávamos a fazer saídas conjuntas. A primeira grande marmelada foi em Sintra, na muralha do Castelo dos Mouros. Andámos pelo menos 1 hora a fugir um do outro e a engolir priliampos, que os havia às dúzias a rondar-nos. Quando nos apanhávamos beijávamos-nos com um ardor que eu nunca tinha sentido antes com nenhuma outra mulher. Os nossos amassos eram completamente diferentes dos que eu tinha tido com outras. Sentia por ela algo de muito diferente e acho que ela sentia por mim algo que eu não sei explicar mas que andava entre me achar hilariante e me achar apetecível. Até aí quase não nos falávamos. Só lhe tentava dizer coisas bonitas ao ouvido que com a taquicardia saíam completamente desconexas e incompreensíveis. E lá estava ela a rir-se novamente de mim. Ou já seria a rir-se comigo? Porque ela agarrava-me novamente pelos colarinhos e lá íamos nós em nova sessão de respiração assistida por mais 15 minutos.

Tudo era lindo. Tudo era perfeito. Excepto o problema de precisarmos sempre de alguém para ficar com a criança. A melhor opção era sair à noite mas o meu primo não tinha paciência para andar a noite toda a toda a hora com a namorada.
Vai daí resolvi ganhar tomates e pedi-la em namoro. "Olha, eu não tenho muito jeito para estas coisas mas...queres andar comigo?". A sério, Sr. R??! Queres "andar" comigo??? Minha nossa senhora...
É mesmo um milagre que ela me tenha aceitado na vida dela. E foi bom. Foi excelente durante muitos e muitos anos.

Vou ver se me vou lembrando de alguns pormenores para prosseguir com o prólogo III. Presumo que são necessários mais 2 ou 3 prólogos até chegar a 2020/2021. Deviam ser precisos 500 prólogos mas a minha memória é uma valente merda...

Beijinhos, meu amor.

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