Prólogo IV

Ninguém tem memória para 27 anos de vida. Muito menos eu que tenho cérebro de galinha. Mas tenho muitas imagens que me ficaram gravadas na memória.
Só na memória, porque infelizmente não tenho fotografias nenhumas com a minha deusa. Tenho fotografias dela e fotografias minhas. Zero fotografias nossas sem ser de casamentos e mesmo essas são só 2 ou 3.

Essas imagens que eu tenho gravadas nem sempre são claras. Nalguns casos associo-as a certos momentos quando na realidade são de outros. É normal, creio eu, mas é uma pena porque as coisas são para nos lembrarmos delas, com alegria ou na pior das hipóteses com saudade.
O que acontece é que muitas delas já nunca mais as conseguirei lembrar. E não faria mal se eu passasse o resto da minha vida com quem amo. Mas o problema é que agora já só tenho a minha filha, que é a imagem viva do meu amor pela minha mulher, e a porra das poucas memórias que vou conseguindo alcançar.

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Já o disse aqui antes, no início quase que não falávamos. A paixão era tão forte que só estávamos bem a amassar-nos num sofá ou numa cama. Era uma coisa incrível a paixão que ali tínhamos. Eu adorava viver daquela forma o nosso dia-a-dia porque pensava que iria durar pouco tempo. Por isso tentava desfrutar ao máximo.
Às vezes não havia sofá nem cama. Uma vez recordo-me de estar encostado à parede no quarto do meu primo (estaria sentado na janela fechada virado para dentro?) e dos amassos serem tão fortes que acabei por ceder. Pedi-lhe muito que parasse mas já não fomos a tempo...coitadas das minhas cuecas.

Éramos jovens e um bocado aventureiros. Não havia sala de cinema ou provador de loja de roupa que nos metesse medo. Nem o WC dos homens do meu local de trabalho escapou. Foi sorte nunca termos passado uma vergonha das boas.

Nunca esquecerei o nosso primeiro momento íntimo. Como sempre, ela sabia perfeitamente para o que ia e eu não fazia a mínima ideia do que me ia acontecer. Ainda foi nos primeiros tempos, quando ainda fazíamos saídas a 4.
Desflorou-se na cama em casa dos meus tios. Ali estava ela. Todo o seu esplendor, ávida por mim senhores ouvintes. Como era possível que aquela deusa quisesse que EU a possuísse?? Queria-me a mim e não a um deus Grego.
Digo isto porque se ela quisesse um deus Grego era fácil, ele não resistiria ao chamamento dela. Por isso era a MIM que ela queria.

Vou fazer aqui um parágrafo para explicar uma coisa.
Eu sempre gostei de mulheres esculturalmente perfeitas. Mas para os outros.
Para mim nunca quis uma mulher desse tipo. Eu prefiro mulheres que são perfeitas com as naturais pequenas imperfeições que são normais dum ser humano.
Por isso, sim, era uma deusa com os pequenos toques naturais dum ser humano de verdade, de carne e osso. Tinha uma estria aqui e outra ali. Tinha os seios lindos mas com uma pequena flacidez por ter sido mãe e tinha uma pequena gordurinha na barriga.
Era simplesmente LINDA! Sim! A mais bela criatura de 4 patas tinha-se apaixonado por mim. Era linda da mesma forma que ainda hoje em dia é linda mas com quase mais 30 anos em cima e com mais duas gravidezes em cima.
Tenho certeza absoluta de que ela gosta de si própria, mas também tenho certeza que em relação ao corpo tem alguma insegurança. Creio que todos temos. Mas no caso dela nunca vi razões para isso. Não é preciso ser-se escultural para se ser lindíssima e charmosa como ela é. É daquelas mulheres que mesmo que vá só vestida com um trapito deixa um rasto que toda a gente fica a olhar, inclusivé as outras mulheres.

Pois é. O nosso primeiro momento íntimo. Ela gostou tanto dos preparativos...mas acabou em pouco mais de 20 segundos. Uma cena que parecia ter sido tirada do American Pie.
A minha primeira experiência íntima ocorreu já com os meus 16. Nunca esquecerei o local. Um quarto dum anexo em madeira montado num terraço. A casa era pequena, o casal teve duas filhas, não havia espaço e montaram o anexo.
A filha mais velha era minha amiga e a melhor amiga dessa minha namorada.
Estávamos nos amassos e resolvemos ir em frente. Nem correu mal para primeira vez. Voltámos a repetir a graça uns dias mais tarde e também não foi mal. Mas à terceira fomos apanhados pela mãe da nossa amiga. A vergonha, senhores...! Não sei porquê mas acho que aquela vergonha alterou qualquer coisa em mim. Um estado de permanente ansiedade quando pratico o amor. Muitas vezes dou comigo a pensar que estou a fazer o possível para o climax ser rápido não vá haver qualquer coisa que o interrompa...de voltar a ser apanhado com as calças na mão...
Ou então não tem nada a ver com isso e é simplesmente alguma coisa fisiológica. O normal é um homem aplicar uma descarga eléctrica e passados 20 minutos estar pronto para outra e eu isso nunca consegui fazer, mesmo antes desse episódio.

Pensei que com o tempo que tinha passado não fosse reviver esse stress mas a verdade é que o coito nem deve ter durado 20 segundos. Pobre deusa...
A expressão de infelicidade estampada no rosto assim que se apercebeu. E o que ela lutou e trabalhou para eu lhe dar uma segunda hipótese...
Fiquei desolado. Não por mim. Por ela. Afinal de contas, eu tinha tirado proveito porque, lento ou rápido, eu tinha atingido o meu clímax. Mas e ela? Pobre leoa.
Nunca ultrapassei este problema. Tivemos muitas relações íntimas toda a nossa vida, mas este problema sempre me perseguiu. E eu sempre fiquei triste, não por mim mas por ela e quando terminávamos eu perguntava-lhe sempre se ela tinha gostado, se tinha atingido o clímax. Porque eu estava a amá-la. E ela a amar-me. Não era justo que ela tivesse direito a menos amor do que eu.
Ela tinha direito de ter uma pessoa que lhe desse prazer em condições. Que a fizesse voar por pelo menos 5 ou 10 minutos. É uma droga forte, o amor. E é isso que uma relação íntima para mim representa: amor.
Eu seria (serei) incapaz de ter uma relação com outra pessoa que não seja por amor. Mas compreendo que possa haver quem veja o assunto ao contrário.

A minha frustração com a minha incapacidade sempre foi tão grande que houve uma altura em que eu, movido pelo amor que lhe tinha e tenho, cheguei a propor à minha deusa arranjarmos uma pessoa, um profissional, que tratasse de lhe dar de vez em quando o prazer que ela merecia. Aquele que eu não lhe conseguia proporcionar.
Ela recusou. Disse-me que a vida não era só isso e que não precisava. Doce leoa...
O que eu teria sofrido se tivéssemos ido por esse caminho. Mas juro que apesar da angústia de a ver nos braços de outra pessoa eu teria ficado imensamente feliz por saber que ela tinha tido o que merecia. E eu poderia continuar a amá-la, e ela a mim, porque o sexo não a ia vincular a essa outra pessoa.

Este acaba aqui mas voltarei a este tema no último prólogo. Já não será na perspectiva do passado mas sim na do presente.
Ainda tenho outros assuntos que quero registar antes de lá chegar.
Beijinhos, amor da minha vida. O meu coração encolhe-se quando te trato assim, carinhosamente.

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